Rir é o melhor remédio: bom humor faz bem para a saúde, garantem pesquisas

Dizem que “rir é o melhor remédio”. A frase, inclusive, poderia estar estampada em qualquer livro de autoajuda. Você pode até ficar com preguiça, revirar os olhos para o ditado popular e achar que isso é encarar o mundo com os olhos de Pollyana, mas o famoso jargão tem respaldo científico. A ciência tem provado, nos últimos anos, que, para melhorar a saúde, não bastam apenas hábitos saudáveis, como não fumar, ter uma dieta balanceada e praticar exercícios físicos regularmente. Segundo os especialistas, o bom humor fortalece o sistema imunológico, ajuda na prevenção de doenças, aumenta a energia e ainda é antídoto para o estresse e as dores. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, comprova: rir reduz em até 10% a sensação de dor.

E tem mais: alguns estudiosos ainda garantem que o riso e o bom humor protegem até o coração, melhorando a ventilação pulmonar e o fluxo sanguíneo, protegendo contra problemas cardiovasculares e melhorando até o desempenho sexual. Uma pesquisa realizada com idosos no Japão mostrou que pacientes mais bem-humorados tinham menos riscos de doenças cardiovasculares graves. Já outro levantamento publicado na Noruega revelou que ter o senso de humor em dia está também diretamente associado a uma maior expectativa de vida.

Mas, se você ainda não está convencido, calma. Pesquisadores da Universidade Loma Linda, na Califórnia, nos Estados Unidos, provaram que o bom humor é um forte aliado até para o bem-estar profissional. Segundo o estudo, pessoas bem-humoradas conseguem se adaptar e lidar melhor com situações adversas. O riso, de acordo com a pesquisa, ajuda, inclusive, a melhorar a memória e o aprendizado uma vez que diminui os hormônios do estresse. Não é à toa que a psiconeuroimunologia é uma nova especialidade da medicina que estuda a maneira pela qual as emoções influem no sistema imunológico.

Para Tatiana Mourão, professora do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, a boa notícia é que rir não tem preço nem contraindicação. Segundo alguns estudos, um bom sorriso no rosto deixa os músculos relaxados por até 45 minutos, aliviando a tensão física e o estresse. Um estudo norte-americano ainda dá a dica: três minutos de boas risadas equivalem a dez minutos de exercício de remo.

“Quando damos uma boa gargalhada, isso é, uma gargalhada de verdade, inúmeras alterações biológicas ocorrem em nosso organismo, que vai de alterações em hormônios, como a diminuição do cortisol, até alterações biológicas no sistema cardiovascular e liberação de endorfinas”, explica a especialista, que garante que o bom humor auxilia até na capacidade de resiliência.

“Devemos sempre nos cercar de uma pitada de humor, procurar enxergar perspectivas favoráveis a despeito das dificuldades, saber que tudo passa, inclusive os momentos difíceis, e ver que podemos fazer do limão uma limonada, ou melhor, um sorvete de limão. Essa atitude de enfrentar as dores de forma otimista e com senso de humor abre portas para soluções criativas e é uma maneira de desenvolvermos uma capacidade importante de enfrentar situações adversas, ajuda na preservação da saúde mental e física em determinadas situações; além disso, permite que a pessoa tenha mais disposição para procurar atividades, como exercícios e dieta, que também ajudam a manter a saúde”, destaca.

Se as pesquisas não te convenceram até agora e você continua achando que isso é papo de livro de autoajuda, temos outro argumento. A ciência já mostrou que pessoas mal-humoradas liberam hormônios que causam palpitações, dores de cabeça, arritmia e até dificuldade de digestão. Em níveis extremos, o mau humor pode até predispor derrame cerebral, infarto e câncer. E os especialistas garantem que, se o bom humor contagia, o peso de ser mal-humorado também afeta todos à nossa volta.

“A saúde é um estado geral de bem-estar físico, mental e social. A saúde não depende apenas da doença, mas também de um estado de bem-estar. Por isso, permanecer constantemente mal-humorado pode trazer prejuízos às nossas relações sociais, aumentar os níveis de estresse e aumentar a chance de quadros de depressão e ansiedade”, avalia a psiquiatra, Kelly Robis, professora da UFMG e da PUC Minas.

E a médica Tatiana Mourão reforça: “O mau humor constante é um problema. A pessoa mal-humorada possui dificuldades de lidar com suas próprias dores assim como ser empática com outras pessoas. Já estamos num período muito difícil, a pandemia traz inúmeras perdas, seja morte de pessoas ao nosso redor, perda de um estilo de vida com maior socialização, perdas econômicas e na área da educação. Não se trata de negar tudo que está acontecendo. Mas olhar com algum senso de humor situações do nosso cotidiano, ler ou assistir a algo que nos faça dar uma boa gargalhada. Podemos também ter contato, mesmo que remoto, com pessoas que nos façam rir um pouco apesar dos momentos sombrios”, pontua.

Porém, ser bem-humorado não é ser palhaço e rir de tudo e de todos. A jornalista Leila Ferreira, autora do livro “A Arte de Ser Leve”, entende que é difícil não ser ranzinza e fechar a cara naqueles momentos em que tudo parece dar errado. E tudo bem ter momentos de mau humor e tristeza, os sentimentos também são inevitáveis, garante Leila.

“Bom humor não é ficar rindo o tempo todo nem viver uma alegria permanente, algo fabricado e de aparência. A vida nos dá, sim, motivos para ter momentos e até semanas de mau humor, mas ele é tóxico. Sou capaz de passar uma vida com uma pessoa deprimida, mas consigo conversar apenas dez minutos com uma pessoa mal-humorada. Mas isso não é fingir que está bem quando não está. É importante viver as tristezas e angústias; não se trata de camuflar esses estados de espírito, mas é ter capacidade de entender que a vida é feita desses e de tantos outros estados”, aconselha.

“O riso é altamente social e nos ajuda a nos conectar com as outras pessoas, além de reduzir os níveis de estresse e trazer sentimentos de satisfação. Por outro lado, aceitar que as emoções, ainda que negativas, se conectem com as nossas vivências, está relacionada a uma maior sensação de felicidade e não uma redução. Na nossa cultura, esperamos nos sentirmos bem o tempo todo. Mesmo quando nos sentimos bem, nós ainda pensamos que deveríamos estar ainda melhor. Essa expectativa nos leva a uma constante frustração o que pode nos tornar menos felizes no geral e isso pode ser muito prejudicial à nossa saúde”, completa a psiquiatra, Kelly Robis.

Como ser bem-humorado

– O primeiro passo, segundo os especialistas, é investir na produção dos hormônios que formam o chamado “quarteto da felicidade”. A serotonina, a endorfina, a ocitocina e a dopamina são os hormônios responsáveis pela sensação de bem-estar e prazer. E, para isso, a dica é se exercitar regularmente e manter uma dieta balanceada. Os especialistas alertam que, quando em desequilíbrio no organismo, o quarteto pode provocar estresse, insônia, desânimo, ganho de peso e, claro, mau humor.

– Alimentos ricos em vitamina B, como salmão, batata, abacate e espinafre, além de ajudar na desintoxicação corporal, são excelentes aliados na produção de serotonina. Já os alimentos ricos em magnésio, a exemplo de feijão, banana, nozes, castanhas e amêndoas, vão te ajudar até a regular os nervos e as emoções. Os alimentos ajudam a melhorar o humor e são antidepressivos naturais. E pode ficar despreocupado; o chocolate não fica de fora desta lista. A versão amarga, que possui 70% de cacau na composição, também está liberada pelos médicos.

– Tenha momentos de respiro. A dica é da jornalista Leila Ferreira, que garante que esquecer as obrigações por alguns instantes e se dedicar ao descanso é essencial para o bom funcionamento do organismo. E não precisa se preocupar em se dedicar a grandes atividades para isso, ouvir uma música, tomar sol, meditar ou passar cinco minutos brincando com seu cachorro pode te garantir momentos de alívio e bom humor durante todo o dia. “Faça pausas nem que seja para ficar à toa cinco minutos e silenciar a mente por dez. Desligue o celular, tenha conversas presentes. As pessoas tentam ser interessantes, mas é melhor ser interessada pelo outro e pelo mundo. Quando não estiver bem ou se estiver mal-humorado, fale, converse. Mostrar sua fragilidade faz com que o próximo te entenda e te ajude”, aconselha a palestrante.

– Agradeça pelas coisas boas que aconteceram em sua vida. Fazer uma lista e lembrar de suas conquistas te distância dos pensamentos negativos.

– Para se inteirar mais sobre o assunto a dica é o livro, do norte americano Norman Cousins, “A Anatomia de uma Doença”. No livro, o autor relata seu caso de cura pelo riso. Com uma doença degenerativa que ataca a coluna vertebral e quase todo o corpo paralisado, Norman, sob acompanhamento de médicos e enfermeiros, conseguiu se recuperar e ter uma vida normal mesmo depois da doença ser classificada como incurável para a maioria dos médicos. Para a cura, o escritor reunia todas as tardes os amigos para assistir a programas de “pegadinhas” e seriados cômicos na TV.

Informações Jornal O Tempo

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